Beleza? Ou um retorno às coisas belas

Por SILAS MARTÍ

Beleza? No Brasil, essa é uma saudação corrente. É também o nome de uma exposição em cartaz no Centro Cultural São Paulo, abrindo o calendário da cena artística paulistana neste 2015. Escrevendo o primeiro post deste novo blog, achei que seria simpático abrir com um comentário sobre essa mostra-saudação, servindo, ao mesmo tempo, de convite para que os leitores que acompanham a cobertura de artes visuais e arquitetura nas páginas da “Ilustrada” estendam sua leitura por aqui.

Este ano não começa nada belo, em especial numa São Paulo estorricada pelo verão infernal e às voltas com a falta d’água que se agrava a cada dia que passa. Nas artes visuais, a beleza também parece ter saído de circulação. Beleza, nesse caso, em seu sentido mais simples, ou mesmo simplório, sendo a ideia de agradar o olhar.

Não que as obras da mostra organizada pela chilena Pamela Prado agora no CCSP esteja cheia de coisas bonitas, badulaques enfeitados ou tralhas decorativas. A beleza ali passa pela ideia de ideal, aquilo que convém e se encaixa da melhor maneira possível numa determinada situação. E essa situação é e não é o status quo paulistano.

Juntando trabalhos do belga Francis Alÿs, do espanhol Santiago Sierra, dos chilenos Pedro Alonso e Patrick Hamilton, do brasileiro Albano Afonso, entre outros, essa é uma mostra cheia de luz, uma montagem que toma partido da galeria envidraçada do piso superior do CCSP, quase sempre atravessada por raios de sol.

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Instalação do chileno Pedro Alonso na exposição ‘Beleza?’, no Centro Cultural São Paulo

Não à toa, trabalhos ali falam de construção e destruição. Pedro Alonso mostra modelos da arquitetura soviética pré-fabricada que serviram de matriz construtiva para cidades planejadas mundo afora, da extinta União Soviética a Paris, passando por Santiago, em Cuba. Seus modelos arquitetônicos, em alusão às construções soviéticas, são encavalados como aquelas bonequinhas russas que cabem umas dentro das outras.

Patrick Hamilton faz alusão ao contrabando de ouro encabeçado por nazistas que se esconderam na América do Sul depois do fim do regime de Adolf Hitler. Muitos deles teriam fugido para o Brasil, para o Chile e para a Argentina e importaram tratores da marca Lanz recheados de engrenagens fundidas em ouro puro, o que depois desencadeou uma busca desenfreada pelos tais tratores em fazendas espalhadas pelos pampas. Na mostra, além de estudos sobre as logomarcas das máquinas, o artista mostra como seria um pistão de trator feito de ouro maciço.

Cena de vídeo do espanhol Santiago Sierra na mostra 'Beleza?'
Cena de vídeo do espanhol Santiago Sierra na mostra ‘Beleza?’

No afã da destruição, porcos devoram um mapa da península Ibérica feito de comida no vídeo de Santiago Sierra. É uma crítica mais do que literal a como os “porcos capitalistas”, nas palavras do artista, são capazes de devorar países inteiros em nome da ganância.

Em nome da fé, ou da fé corrompida, Francis Alÿs cria outra das obras mais contudentes da mostra. Numa performance em pleno deserto mexicano, um grupo de 400 trabalhadores, cada um com uma pá, tenta deslocar em alguns centímetros uma imensa duna de areia. Sua alusão ao ditado de que a fé pode mover montanhas se torna uma reflexão mais do que ácida sobre como a fé pode justificar os atos mais insensatos, algo que ganha outra leitura na ressaca do massacre na sede do “Charlie Hebdo”.

Instalação de Albano Afonso na mostra 'Beleza?', no Centro Cultural São Paulo
Instalação de Albano Afonso na mostra ‘Beleza?’, no Centro Cultural São Paulo

Na parede de trás da galeria toda de vidro, Albano Afonso aplicou uma reprodução estilizada da mata lá fora, com árvores e arbustos surgindo cheios de arestas numa espécie de floresta de cristal. É a beleza idealizada, de imperfeições subtraídas, que sublinha esse conjunto de belezas que saíram de moda, da hegemonia da fé à arquitetura maquinal que só tornou a vida mais estéril. E que este seja um ano muito fértil nas artes visuais.