Do racismo na arte contemporânea

Por SILAS MARTÍ
lauriano
Vista geral da mostra individual do artista Jaime Lauriano, na galeria Leme, em São Paulo

No chão da galeria, riscados com giz, estão traços que lembram as rotas dos navios negreiros, da África para o Brasil. Nas paredes, estão frases de boletins de ocorrência destacando elementos suspeitos “negros e pardos”. Mas talvez o trabalho de Jaime Lauriano que mais chama a atenção nesta sua primeira individual é uma pequena muda de pau-brasil que cresce dentro de uma vitrine, sob luz e correntes de ar artificiais. Quando a árvore crescer, se sobreviver, vai destruir seu invólucro. Caso contrário, morrerá sufocada dentro dessa espécie de caixão transparente.

Lauriano sempre discutiu a violência em sua obra, no caso, uma violência que parece estar na formação do Brasil como nação, firme e profunda como as raízes da árvore que deram nome ao país. Pela primeira vez, no entanto, ele se assume como um autor negro, falando de questões de raça.

Ele abriu sua exposição na galeria Leme, em São Paulo, na semana em que o filme “Selma”, sobre a histórica marcha contra a segregação racial no sul dos Estados Unidos liderada por Martin Luther King em 1965, chega aos cinemas e a “Ilustrada” publicou uma reportagem sobre uma série de performances em que ativistas negros vão em massa a vernissages nas galerias da cidade em busca de visibilidade.

Num trabalho fora da mostra, que esteve em exposição no Centro Cultural São Paulo, no ano passado, Lauriano mostra rapazes cobrindo o rosto com a camisa da seleção brasileira ao som de uma lista de 22 dissidentes políticos assassinados durante o regime militar, em alusão aos anos de chumbo disfarçados pela alegria do futebol –no caso, a vitória do Brasil na Copa do Mundo de 1970, auge da repressão.

Lauriano e Moisés Patrício, um dos idealizadores da performance “Presença Negra”, estiveram na Folha para debater o assunto. Veja aqui a conversa com os dois.

 

 

Leia a seguir uma entrevista que fiz com Lauriano também nesta semana.

Qual é a situação dos negros no cenário da arte contemporânea do país?

Ser um artista negro é complicado porque não se toca nesse assunto. O artista negro que se destaca na arte brasileira não é visto como um artista negro. O discurso de miscigenação é tão disseminado, que é como se isso não fosse uma questão. Ser um artista negro já é um ato político, mesmo que seu trabalho não fale da questão racial. Ser um artista negro no Brasil já é uma puta batalha e poucos conseguem se destacar. Eu não vejo um preconceito racial ou racismo, porque se dissesse isso seria leviano, mas é um racismo mais velado. É não lidar com essa questão. É como se a cor dele fosse nenhuma. Isso não é trazido à tona. As pessoas esquecem de dizer isso, mas está havendo uma retomada agora. É o negro querendo tomar o protagonismo de sua história.

Você acredita que obras que tratam de questões raciais abriram um novo nicho de mercado?

Isso é um conflito e lugar de medo para mim. Existe o risco disso se tornar um fetiche pelos grafismos, pela iconografia, o que tira a potência de uma reelaboração da história. Está surgindo um nicho de mercado, e esse é o grande embate que eu tenho comigo mesmo. Quando o trabalho circula no mercado, isso pode ser muito ruim. Mas estamos num caminho muito bom. Antes havia um silêncio, então esse interesse vai nos fazer pensar sobre a nossa própria história. Isso é muito sintomático, tanto que a próxima Bienal do Mercosul vai ter um núcleo para se pensar o Brasil a partir da teoria pós-colonial. Isso é fundamental na nossa história e na nossa construção, mas que vinha sempre deixado de lado, esquecido, por tentar globalizar nossa forma de produção cultural. É um confronto dialético que vai trazer muitas coisas boas.

Por que esse interesse repentino do cenário artístico pela questão racial?

Acredito que isso deriva do momento político e social que estamos vivendo. Desde as insurgências e revoltas populares, vivemos um momento de descontentamento, e isso reflete muito sobre como se vive. Isso refletiu na arte e depois em como o mercado, os curadores e os críticos começaram a ver isso como recorrente nas obras dos artistas. Vejo isso como um trabalho contínuo, que vem surgindo há uns dez anos. A gente já tinha uma recorrência de assuntos sobre violência e sobre violência contra o corpo do negro, mas isso só tem se tornado mais forte. A arte vem a responder a necessidades históricas. A gente vive um momento latente de revoltas. A arte foi junto, e todo mundo sentiu a necessidade de falar sobre essas coisas. Esses trabalhos que lidam com violências corporais estão ressurgindo.

De que forma você vê esse assunto sendo tratado por artistas brancos?

Não acho algo ruim. Na verdade, é um tema que perpassa toda uma história da construção do Brasil. Mas acho ruim quando isso é usado como maneira de fetichizar e tornar exótico alguma coisa, e aí eu coloco não só os artistas, mas os curadores, historiadores e críticos. Há uma fetichização da violência contra o negro. E desse tipo de atitude podem surgir novos preconceitos em vez de uma nova discussão sobre o racismo. No trabalho do Afonso Tostes, por exemplo, eu vejo algo além da violência da escravidão. Ele fala muito mais da força do trabalho, o que é claro no caso do negro. É a violência física sobre o corpo de um trabalhador. Às vezes, as tentativas param no meio do caminho. O próprio Museu Afro Brasil não trabalha esse assunto. A mostra “Histórias Mestiças” também não trouxe tanta problematização. Não me incomodam artistas ou pensadores brancos falando da cultura negra, mas sim quando brancos ou negros fazem uso do ideário da violência contra o negro para criar fetiches e clichês.

Você se identifica como um artista negro?

Eu não entendia o que era ser negro, mas me assumi como negro e isso virou um tema muito grande na minha pesquisa e no meu trabalho. Hoje eu posso afirmar que me identifico como artista negro e isso tem um impacto na minha maneira de trabalhar, na minha visão do Brasil e da arte. Meus trabalhos pensam sobre a construção do Estado que passa pela inibição do corpo de um oprimido. É a formação do Brasil a partir da violência e da dominação do corpo de outra pessoa. Tem a escravidão, a ditadura e o genocídio das classes mais pobres. É um estudo sobre o corpo brasileiro, não um corpo individual, um corpo coletivo, dócil. Essas investigações giram em torno da dominação e da subjetivação do corpo.