Minimalismo em sua máxima potência

Por SILAS MARTÍ
Obra de Richard Serra na mostra 'Into the Light', na galeria Raquel Arnaud
Obra de Richard Serra na mostra ‘Into the Light’, na galeria Raquel Arnaud

Um quadro quase todo negro, com frestas brancas de luz, domina uma exposição coletiva agora em cartaz na galeria Raquel Arnaud, em São Paulo. Esse trabalho do norte-americano Richard Serra, famoso por suas esculturas de aço maciço, vira uma espécie de buraco negro, sugando toda a luz de um espaço ocupado por obras em sua grande maioria brancas, ou diáfanas.

Serra vem do berço do minimalismo, movimento que ganhou força nos Estados Unidos ao longo dos anos 1960. Não espanta que suas obras, embora realizadas da mesma forma até os dias de hoje, pareçam ancoradas nessa experiência de concisão formal absoluta, em que o menos sempre foi mais.

Mas “Into the Light”, a mostra que ocupa agora o espaço da Vila Madalena, traz um elenco de autores, entre artistas históricos e contemporâneos, com raízes muito distintas do cenário americano. Estão lá nomes como Carlos Fajardo, com um trabalho em que placas de vidro sobrepostas criam um belo jogo de luz e sombra que se materializa no espaço, e até Lygia Clark, com uma das telas de sua série “Superfícies Moduladas”, talvez um dos trabalhos mais fortes de toda a sua trajetória.

Entre os mais jovens, artistas como o fotógrafo Ding Musa ou Carla Chaim, também chamam a atenção por experimentos que refutam a cor e qualquer ranço figurativo, o que faz desta exposição um exercício de formas puras flutuando no espaço –um expurgo da cor, do drama e talvez até mesmo da sujeira da vida.

Tenho uma queda confessa por obras dessa natureza. E sei que não estou sozinho. Talvez isso seja sintomático de vivermos em tempos de excesso imagético, de feeds infinitos de notícias, streamings virais, Instagram, YouTube e afins. Na esfera da arte, é uma cacofonia que vem cedendo cada vez mais espaço a uma leva de artistas que prezam o silêncio acima de tudo.

Em todo caso, vale pensar que silêncio é esse, ou melhor, qual é a medida desse silêncio. Quando o branco vira uma espécie de moda, difícil não suspeitar também que isso seja só um disfarce para a falta do que dizer.

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