Memórias fotográficas nada neutras

Por SILAS MARTÍ
Detalhe de instalação de Óscar Muñoz, na Tabacalera, em Madri
Detalhe de instalação de Óscar Muñoz, na Tabacalera, em Madri

Duas mostras atacam por vieses distintos a ideia de fotografia como guardiã da memória agora em Madri –uma individual do artista colombiano Óscar Muñoz, na Tabacalera, centro cultural que funciona numa antiga fábrica de cigarros na capital espanhola, e uma grande exposição coletiva em cartaz no Reina Sofía, que repassa toda a evolução da fotografia documental dos anos 1970 na Europa e nos Estados Unidos.

Enquanto Muñoz cria videoinstalações em que imagens no papel fotográfico dão a impressão de surgir e desaparecer quando manipuladas num laboratório, deixando rastros negros na água ou sobre a superfície do papel, a mostra no museu trata de uma virada na história da fotografia documental, quando o fotojornalismo abandonou a pretensão de ser um registro neutro da realidade para se tornar o que alguns teóricos chamaram de “concerned photography”, algo como fotografia engajada.

Detalhe de instalação de Óscar Muñoz, na Tabacalera, em Madri
Detalhe de instalação de Óscar Muñoz, na Tabacalera, em Madri

Na Tabacalera, Muñoz espalha suas obras pelas antigas duchas e pias usadas pelos operários, numa poderosa montagem que evoca as memórias daquele lugar. Em versão menor e menos site-specific, essa mesma instalação pode ser vista agora na mostra “Memórias da Obsolescência”, com vídeos da coleção de Ella Fontanals-Cisneros, no Paço das Artes, em São Paulo.

Um dos cartazes na mostra 'Aún No', no Reina Sofía, em Madri
Um dos cartazes na mostra ‘Aún No’, no Reina Sofía, em Madri

No Reina Sofía, um panorama visual vertiginoso de como as lutas por moradia e direitos civis dos negros nos Estados Unidos  foram retratados por artistas e fotojornalistas desbanca qualquer tese de registro neutro da realidade, requalificando a ideia de memória não como passado documentado, e sim como uma realidade alterada por lentes nada neutras.

Entre essas lentes estão a de artistas conceituais como a norte-americana Martha Rosler, que documentou a evolução do Bowery, no sul de Manhattan, o clássico filme da francesa Agnès Varda, avó da nouvelle vague, sobre os Panteras Negras na Califórnia dos anos 1970, sem contar as fotorreportagens que a dupla de americanos Ruth-Marion Baruch e Pirkle Jones primeiro mostraram no Young Museum, de San Francisco, também na década de 1970.

Uma das imagens da série de Ruth-Marion Jones e Pirkle Jones sobre os Panteras Negras, agora no Reina Sofía
Uma das imagens da série de Ruth-Marion Jones e Pirkle Jones sobre os Panteras Negras, agora no Reina Sofía

Embora esses sejam registros mais conhecidos, a mostra dedica uma sala a um momento pouco visto da história fotográfica recente na Europa. São as fotomontagens do italiano Aldo Bonasia, que documentou a luta por moradia e a expulsão das classes mais pobres de vários bairros de Milão durante uma onda de reurbanização e especulação imobiliária.

Suas imagens, algumas delas montadas em painéis que lembram a repetição de serigrafias criadas por Andy Warhol, mostram uma Milão violentíssima, de vísceras no chão e confrontos armados com a polícia. Sem dúvida, vidas em frangalhos não inspiram visões neutras.