Artigas e sua pequena joia construtiva

Por SILAS MARTÍ
Casa construída em 1942 por Vilanova Artigas, em São Paulo
Casa construída em 1942 por Vilanova Artigas, em São Paulo

Na “Ilustrada” desta terça, publiquei uma reportagem sobre o centenário de Vilanova Artigas. Quem conhece as obras do arquiteto, como a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sabe o que é ser ao mesmo tempo impressionado por uma escala monumental e se sentir integrado ao ambiente, que de bruto, como sugere o nome brutalismo, não tem quase nada.

Essa dimensão mais humana de seus desenhos, embora esteja na base de tudo o que fez, é mais nítida numa de suas primeiras obras. Sua casinha, como ficou conhecida a primeira casa que ergueu para si mesmo no bairro do Campo Belo, na zona sul paulistana, é uma espécie de manifesto de seus ideais na arquitetura. De pé ainda hoje, a construção de 1942 divide o terreno com a casa maior que fez para a família quatro anos depois.

É uma pequena construção, com um quarto, uma sala fundida à cozinha, para que quem cozinhasse não ficasse isolado da vida da casa, e um porão onde funcionava um ateliê para sua mulher. Tudo ali gira em torno da escadaria que leva ao quarto. Em cima do bloco hidráulico e elétrico, essa estrutura rege todo o movimento da casa, da cozinha à sala de estar.

Planta de casa construída em 1942 por Vilanova Artigas, em São Paulo
Planta de casa construída em 1942 por Vilanova Artigas, em São Paulo

No ano de seu centenário, vale olhar mais uma vez para essa pequena joia da arquitetura, que Artigas enxergava como algo alinhado ao modernismo orgânico do norte-americano Frank Lloyd Wright e, eu arrisco, talvez até mesmo à modernidade como queria Louis Sullivan, um dos artífices de Chicago, ainda no século 19, com a máxima de que a forma segue a função.

Nada na casinha do Campo Belo é gratuito. É uma construção que funciona como máquina, mas não no sentido maquinal das obras austeras de Le Corbusier. É uma máquina de morar que não repele ninguém. Escavada um metro abaixo da cota do terreno, a casinha era para ser construída sem andaimes, respeitando a escala de um homem que sem o uso dessas estruturas consegue erguer paredes de no máximo dois metros de altura.

Nesse ponto, a casinha de Artigas reconhecia em sua estrutura a precariedade das práticas construtivas da São Paulo dos anos 1940, que não podia aspirar à modernização a toque de caixa propalada pela Bauhaus alemã. Artigas, como apontam uma série de críticos, esteve sempre entre o arcaico e o moderno.

Numa visita à construção com sua filha, a historiadora Rosa Artigas, soube que ele criticava, por exemplo, outro gigante do modernismo paulistano. Gregori Warchavchik, autor da Casa Modernista, irritou Artigas ao erguer beirais em torno do topo de sua casa para esconder um telhado tradicional e dar a impressão de uma laje retilínea. Em sua casinha, Artigas não esconde um telhado tradicional, mas debaixo dele parece ter dado o primeiro passo para arquitetar a exuberância estrutural de suas obras que viriam depois.