Tamar Guimarães e seu herói em fluxo

Por SILAS MARTÍ
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães vai mostrar no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães vai mostrar no pavilhão belga da Bienal de Veneza

Tamar Guimarães é uma artista em trânsito. Brasileira radicada em Copenhague, suas obras sempre trataram de demolir, auscultar e dissecar as contradições do que se entende por modernidade. Vi seu trabalho pela primeira vez na Bienal de São Paulo de cinco anos atrás, um filme em que encenou uma festa da elite intelectual das artes visuais do país no cenário deslumbrante da Casa das Canoas, de Oscar Niemeyer, no Rio. Ali, num tom entre telenovela e cinema vanguardista, Guimarães descascava camadas de pretensão que costumam rondar o discurso artístico e desbancava alguns falsos mitos que se eternizaram na narrativa modernizante do Brasil.

Cena do vídeo "Canoas", de Tamar Guimarães, que esteve na Bienal de São Paulo em 2010
Cena do vídeo “Canoas”, de Tamar Guimarães, que esteve na Bienal de São Paulo em 2010

Desde então, venho seguindo sua obra. Ela esteve depois na Bienal de Charjah, mais uma vez na Bienal de São Paulo e agora vai ocupar um espaço no pavilhão belga da Bienal de Veneza. Essa condição de estrangeira favorece sua obra. Quando Adriano Pedrosa fez sua polêmica edição do Panorama da Arte Brasileira sem artistas brasileiros no Museu de Arte Moderna de São Paulo há seis anos, ela, mesmo nascida em Minas Gerais, estava ali entre os estrangeiros que emulavam de alguma forma o zeitgeist do país.

Em Veneza, Guimarães ocupa um posto ao contrário do seu no Panorama de 2009. Entre europeus, ela dará sua versão de uma narrativa moderna eurocêntrica, mas que sofreu, nas palavras do artista Vincent Meessen, titular do pavilhão, uma polinização cruzada de influências africanas e europeias. Imagino que Guimarães entre na equação como um híbrido latino, vinda de um país de raízes europeias e também africanas.

Ela criou ali um personagem, uma espécie de herói jardineiro, que tece um discurso, citando de Mário de Andrade e Eduardo Viveiros de Castro a Jean Dubuffet e Lévi-Strauss, sobre o que significa a modernidade num estado de ultraglobalização, momento histórico revisto à luz do relativismo cultural que se impôs no mundo da arte desde o deslocamento das vanguardas de Paris para Nova York e de Nova York para todas as metrópoles do mundo emergente, de São Paulo a Dubai. Veja aqui alguns dos slides da projeção que a artista prepara para a sua instalação no pavilhão belga da Bienal de Veneza, que será aberta em maio na cidade italiana.

Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza
Detalhe de instalação que Tamar Guimarães apresenta em maio no pavilhão belga da Bienal de Veneza