Elegância e potência ao quadrado

Por SILAS MARTÍ
ida
Agata Trzebuchowska em cena do filme ‘Ida’, de Pawel Pawlikowski

Alguma coisa acontece nas margens da imagem em dois dos últimos filmes mais impactantes do cinema nos últimos tempos. “Ida”, obra do polonês Pawel Pawlikowski que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro neste ano e está agora em cartaz em São Paulo, e “O Homem das Multidões”, de Marcelo Gomes e Cao Guimarães, que estreou há dois anos, são filmados com enquadramentos quadrados, como se a homenagem à forma de ângulos retos e lados iguais de Josef Albers revivesse no cinema.

Pintura da série 'Homenagem ao Quadrado', do alemão Josef Albers
Pintura da série ‘Homenagem ao Quadrado’, do alemão Josef Albers

Ou, em vez de Albers, talvez seja o Instagram uma influência decisiva no resgate do médio formato. Em “Ida”, há cenas inteiras com mais teto do que o plano da ação, em enquadramentos que violam a lei áurea das proporções, o que jogaria os olhos dos personagens para o terço superior da tela.

Dawid Ogrodnik e Agata Trzebuchowska em cena de 'Ida', de Pawel Pawlikowski
Dawid Ogrodnik e Agata Trzebuchowska em cena de ‘Ida’, de Pawel Pawlikowski

No filme de Pawlikowski, os olhos não saem do terço inferior, criando uma sensação de peso insuportável em cada cena. Vendo esse filme, veio à cabeça os trabalhos também absurdos de tão bons de Lucrecia Martel e Tsai Ming-Liang –a argentina e o malaio, mesmo filmando no formato panorâmico, não deixam de criar arquiteturas estoicas, ultradensas em cada fotograma.

Paulo André em cena de 'O Homem das Multidões', de Cao Guimarães e Marcelo Gomes
Paulo André em cena de ‘O Homem das Multidões’, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes
Cena de 'O Homem das Multidões', de Cao Guimarães e Marcelo Gomes
Cena de ‘O Homem das Multidões’, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes
Paulo André em cena de 'O Homem das Multidões', de Cao Guimarães e Marcelo Gomes
Paulo André em cena de ‘O Homem das Multidões’, de Cao Guimarães e Marcelo Gomes

Numa obra mais recente, mas sem o efeito dramatúrgico de “Ida”, Cao Guimarães e Marcelo Gomes traduzem a euforia vintage do Instagram para o plano do cinema. É um filme belíssimo, mas que em certos pontos se esquece de ser um filme, o que não é de todo ruim, mas cansa. Lentidões narrativas à parte, é uma bela e poderosíssima homenagem ao quadrado.

Outro dia, conversando com Tuca Vieira, um dos fotógrafos mais interessantes hoje no país, falamos desses quadrados. Um de seus trabalhos mais recentes, a série que fez para a Bienal de Arquitetura de São Paulo em Pernambuco e no Pará é toda realizada com enquadramentos quadrados.

Vieira comentou comigo que isso dava uma certa elegância à imagem, por mais ruidosa e alucinante que fosse seu assunto no retratado, no caso, a violência da extração de minério na mina de Carajás, no Pará, ou uma ruazinha abarrotada de motocicletas vermelhas em Pernambuco.

Fotografia da série 'Viagem ao Brasil', de Tuca Vieira
Fotografia da série ‘Viagem ao Brasil’, de Tuca Vieira
Fotografia da série 'Viagem ao Brasil', de Tuca Vieira
Fotografia da série ‘Viagem ao Brasil’, de Tuca Vieira