Jac Leirner mede o tempo em Charjah

Por SILAS MARTÍ
Instalação de Jac Leirner na Bienal de Charjah
Instalação de Jac Leirner na Bienal de Charjah

Jac Leirner ocupa uma sala da Bienal de Charjah com réguas e jogos de Sudoku que resolveu. Sua obra, a exemplo de boa parte desta 12ª edição da maior mostra de arte contemporânea no Oriente Médio, é uma reflexão sutil sobre a passagem do tempo e as formas de medir o mundo. Além dos passa-tempos e dos instrumentos de medida, a artista exibe algumas de suas antigas obras com notas de cem cruzeiros. Dinheiro, ócio e a matemática se transformam em Charjah no tripé das medidas do mundo.

São poucas as cores, a não ser o tom das réguas e do rosto dos políticos nas cédulas, nessas obras de Leirner. Uma tela de linho com mais de três metros de largura, também em cores esmaecidas, exibe um arsenal gigantesco dos exercícios de Sudoku, uma presença que denuncia quanto tempo a artista terá levado para construir a composição. Nesse ponto, Leirner alude à velha noção de que uma obra de arte requer esforço e transpiração, embora esteja ao mesmo tempo ancorada na tradição conceitual que orienta sua obra.

Instalação de Jac Leirner na Bienal de Charjah
Instalação de Jac Leirner na Bienal de Charjah

Num universo político conturbado e atravessado por guerras sangrentas, esses trabalhos de Leirner ganham ressonância ímpar aqui, ainda mais em contraste com a ostentação cafona que domina o emirado vizinho de Dubai. Seriam provocativas, sem exagero, em qualquer lugar. Mas aqui parecem emudecer a euforia e levar o olhar para uns tons abaixo da norma. Quem passa por ali na hora certa vai ouvir o chamado à reza do alto dos minaretes nas mesquitas de Charjah, que rodeiam os espaços da exposição.

Obra de Jac Leirner na Bienal de Charjah
Obra de Jac Leirner na Bienal de Charjah

 

Leirner não pensou nesse diálogo, pelo menos foi o que me contou em seu ateliê em São Paulo, mas seus singelos exercícios de Sudoku e as notas de cruzeiro vencidas pela inflação de tempos atrás constroem um poderoso painel de introspecção. É o olhar para dentro, para longe da realidade, que faz desse conjunto de obras uma espécie de mergulho, uma vontade escapista que vai se adensando em progressão geométrica partindo das cédulas de dinheiro, passando pelas réguas até chegar ao vazio dos joguinhos de jornal.