Autorretratos para conter a cegueira

Por SILAS MARTÍ
Obra de Sophie Calle, no centro cultural La Virreina, em Barcelona
Obra de Sophie Calle, no centro cultural La Virreina, em Barcelona

Numa mostra agora no centro cultural La Virreina, em Barcelona, Sophie Calle retoma sua investigação obsessiva pela verdade no discurso fotográfico. Inconformada com o fora que levou de um namorado que terminou um relacionamento com ela por e-mail há muitos anos, Calle fez desse pé na bunda um épico da arte conceitual e performática, convidando mulheres de todas as profissões e origens para interpretar o famoso e-mail que recebeu.

Em Barcelona, ela mostra não só os desdobramentos da malfadada correspondência como também uma série de trabalhos em que vai fundo na questão sobre até que ponto imagens reais são de fato verdade ou só uma construção. Nisso, ela entrevista cegos sobre a imagem mais memorável que ainda guardam na lembrança e outros que ficaram cegos em acidentes para relembrar a última coisa que viram antes de perder a visão. Sua obra é um poderoso compêndio de relatos que narram imagens verdadeiras ou não, sublimes por permanecerem como frágeis resquícios na memória ultrajada pela tragédia. Um tanto melancólica, sua instalação não deixa de ser um retrato mais do que fiel do novo estatuto da fotografia num momento histórico em que ela passa ao largo de retratar a realidade. Tudo pode ser fabricado na imagem fotográfica, mesmo a nostalgia mais profunda.

Outra de suas séries leva cegos para a beira do mar, para que ao menos ouçam o arrebentar das ondas. É um de seus trabalhos mais potentes porque escancara no silêncio e na tristeza a fragilidade de uma experiência visual. Calle retrata ali um mundo fugidio, de semblantes e verossimilhanças que escapam ao olhar como uma onda que desaparece na turbulência do mar.

Pintura de Maria Lassnig, agora na Fundação Antoni Tàpies, em Barcelona
Pintura de Maria Lassnig, agora na Fundação Antoni Tàpies, em Barcelona

Maria Lassnig, artista austríaca morta há pouco e grande homenageada da última Bienal de Veneza, também marca presença em Barcelona com uma mostra na Fundação Antoni Tàpies. Sua pintura de paleta rebaixada e gestual contido, sempre representando ela mesma com feições de desespero, é um olhar entregue à violência do espelho, uma pintura-performance em que a artista se mostra mais vulnerável do que tudo nas composições que constrói.

Ela parece mergulhar num universo tétrico para dar sua própria versão da realidade. Quase tudo na mostra e quase tudo o que fez dos anos 1970 até sua morte gira em torno de autorretratos angustiantes, imagens de um cinismo pegajoso que mostram a artista enquanto pintora resignada, uma ode ao esfacelamento da beleza, ou um feroz testemunho da própria decadência.

Lassnig, aliás, brilha mais quando mergulha toda a percepção num universo esverdeado, esmaecido, como se não houvesse amanhã. Suas formas se distorcem pela posição que adota ao pintar, sentindo cada músculo do corpo doer. Ela é uma dessas artistas de humor corrosivo e melancolia avassaladora que só agora parece sair das sombras, logo depois de sua morte.