Antonio Henrique Amaral, o Brasil e as bananas como símbolo do deboche

Por SILAS MARTÍ
Tela de Antonio Henrique Amaral
Tela de Antonio Henrique Amaral

Morreu na tarde desta sexta o artista plástico Antonio Henrique Amaral. Um dos maiores nomes da vertente pop da arte brasileira, Amaral vinha sendo relembrado nos últimos anos com mostras na Pinacoteca do Estado, na Caixa Cultural e na galeria Bolsa de Arte, todas em São Paulo. Ficou famoso nos anos 1970 por sua inesgotável série das bananas, em que pintou tela atrás de tela com a fruta símbolo da tropicalidade.

Mas as bananas de Amaral eram uma alegoria ácida dos desmandos do regime militar no Brasil, que ameaçava reduzir ao país a “uma daquelas republiquetas centro-americanas”, nas palavras do artista. Lembro de nossa última conversa, em visita à sua mostra na Pinacoteca. Amaral estava bem e se lembrava com detalhes de tudo que havia pintado ao longo dos anos. Leia a seguir a íntegra de sua última entrevista à Folha.

Sua carreira começou com ilustrações que lembram a estrutura das histórias em quadrinhos, mas já tinham uma pegada política. Como você vê o início da obra e sua reação ao golpe militar?

Quando houve o golpe militar, eu fiz uma série de gravuras satirizando os guardas. Fiz um comentário social explícito, esqueci a estrutura para comentar o golpe militar de forma explícita. É um comentário sarcástico sobre a tomada de poder. Tem esse aspecto de cordel porque queria contar uma história bem literal.

Aquilo era imposição que caiu como um raio sobre o Brasil. Fiz um álbum de sete imagens chamado “O Meu e o Seu”. Vendi um Volkswagen que eu tinha e eu mesmo produzi. Eu era vice-gerente de uma empresa americana de publicidade. Era uma esquizofrenia muito grande. Fiz o álbum e vivi um ano desse álbum. Eu achava importante viver de arte, não queria me dividir, e eu me sentia muito dividido como ser humano. Tive que encarar o mercado de arte, que mal existia. Só viviam de arte o Manabu Mabe, o Aldemir Martins.

Como a publicidade influenciou seu trabalho?

Era a série das bocas. Eu repercutia as coisas que ecoavam na minha cabeça, o blá-blá-blá da publicidade. É a dificuldade do diálogo, embora a propaganda nos infernizasse, a comunicação verdadeira era muito difícil.

Desde então você foi enquadrado na vertente pop da arte brasileira, embora o pop no Brasil pouco tenha a ver com a dimensão que tinha nos EUA. Você se sente um artista pop?

É toda uma problemática pessoal. Nunca tive a preocupação de ser coerente. Sou um incoerente confesso, sempre fui um lobo solitário no meio das tendências, muitas vezes contra a maré. Eu fui contra a ditadura porque não queria a ditadura. Vivi no meio dos concretistas, mas nunca me filiei a nada. Não me considero pop, mas isso estava no ar. Havia os Mutantes, o Caetano, o Gil. Tem fotos do Gil e do Caetano segurando uma escultura de banana que eu fiz. Essa coisa da nova figuração, o tropicalismo e o pop estava tudo misturado.

Pode comentar a evolução da série das bananas?

Nos primeiros quadros, as bananas eram verdes, saudáveis, exuberantes. Na verdade, eu queria esculhambar com o governo militar, era a república das bananas. Os militares estavam reduzindo o Brasil a uma grande república das bananas, como a republiquetas centro-americanas controladas pela United Fruit Company. Os militares reduziram o Brasil a uma grande república das bananas. A banana começou inteira, foi destruída, torturada e depois acaba. E o último quadro dessa série é só um garfo. Quando eu pintei os 35 “Campos de Batalha”, eu matei a banana, acabou a banana, mas aí eu entrei numa crise. Aí meu trabalho mudou, comecei a olhar para dentro. Mudou minha visão de mundo.

Como foi a reação da crítica e do público a essa série?

Era uma coisa explosiva de sarcasmo, de deboche. Meu desafio era pintar e, ao mesmo tempo, refletir sobre a tortura, o controle, as prisões. A peça “O Rei da Vela” foi um gatilho para eu começar. Pintei a série das bananas em sete anos, são mais de 200. Aqui as pessoas viam um sado-masoquismo nessas bananas, enquanto nos Estados Unidos elas viam sexualidade.

E a censura, como reagiu a esse tipo de trabalho?

Essa série estreou em 1967, na galeria Astreia. Na primeira exposição que eu fiz, eu não vendi nenhum quadro. Eles perceberam a dose satírica nisso, mas os censores cairiam no ridículo censurando uma exposição de bananas. Foi o jeito de fazer uma sátira sem ser massacrado pela censura.

Mas depois desse trabalho você se mudou para Nova York, não foi?

Fiquei de 1972 a 1981 em Nova York. Lá tudo podia ser dito. Você passava na rua puxando um fuminho, e o guarda só dizia que aquilo fazia mal. Não havia limites, tudo podia acontecer. Com tanta luz era preciso fechar o foco para não estourar o filme. Quando cheguei em Nova York, eu comecei a fazer os ‘Campos de Batalha’. Senti uma abertura tão grande que eu fiquei perdido. Ou eu começava de novo ou me aprofundava mais.

O princípio da arte é traduzir o que está dentro da sua cabeça, essa atividade elétrica do cérebro, pelas fibras do seu corpo, dos músculos e nervos até sair pelas mãos. As coisas não tinham projeto, eu ia entrando no quadro sem saber o que estava acontecendo.