Nos 50 anos da Globo, veja as melhores aberturas de Hans Donner

Por SILAS MARTÍ

Neste domingo em que a TV Globo comemora seus 50 anos, tendo entrado no ar pela primeira vez em 26 de abril de 1965, publiquei na “Ilustrada” uma entrevista com o designer Hans Donner, o austríaco por trás de toda a identidade visual do canal até hoje líder de audiência no país.

No comando do design da emissora, Donner entrou para a história como uma das maiores influências da visualidade pop no país, com suas mulheres peladas dançando, volumes metalizados, muito uso de formas tridimensionais e cores histéricas. É amado e odiado por designers no país e criou escola na linguagem da televisão nacional, com canais clonando suas criações.

Veja a seguir dez trabalhos que marcaram a trajetória de Donner desde que desenhou num guardanapo o símbolo da TV Globo.

Fantástico. Donner considera a abertura que criou para a revista eletrônica em 1983, a primeira a usar computação gráfica na história da TV brasileira, sua obra-prima. Nela, bailarinas trajando o melhor do kitsch oitentista dançam em plataformas que surgem de cones e pirâmides fatiados por lasers.

Deus nos Acuda. Uma das aberturas mais lembradas, a vinheta da novela “Deus nos Acuda”, de 1992, foi inspirada numa festa de corruptos em Brasília, em que convidados em traje de gala afundam –de verdade– na lama. Todo o cenário foi mergulhado numa piscina de barro para dar a sensação de que o país, à beira do impeachment de Fernando Collor, virava um lamaçal.

Vale Tudo. Desviando um pouco do estilo espalhafatoso de Donner, mas sem perder o ritmo de videoclipe, a abertura da novela de 1988 entrou para a história talvez mais pela música “Brasil”, de Cazuza, gravada por Gal Costa na novela. Mesmo assim, inovou ao misturar imagens de telejornal e clichês do Brasil, de frutas tropicais a bundas brilhando em biquínis fio dental.

Tieta. A abertura da novela de 1989 consagrou a atriz Isadora Ribeiro, que já havia estrelado a vinheta do “Fantástico” de 1987 como uma das maiores musas de Hans Donner. Aqui, a areia do sertão e cascas de frutas se transformam no corpo voluptuoso da atriz, num ensaio do que seria a abertura com efeitos um pouco mais sofisticados de “Pedra sobre Pedra”.

 

Pedra sobre Pedra. Três anos depois de “Tieta”, em 1992, Donner transformou o corpo de Mônica Fraga em acidentes naturais, com seios que viram morros, pernas que viram troncos à beira de um rio. Ela, claro, está pelada em todas as circunstâncias. Na sequência mais surpreendente para a época pré-efeitos especiais, ela girava e se transformava em árvore.

Mulheres de Areia. No remake de 1993 da novela de Ivani Ribeiro, “Sexy Iemanjá”, de Pepeu Gomes, embalava uma vinheta de mulheres peladas que surgiam da areia e da água. Na última das várias reprises da novela, um filtro embaçou os seios e outros detalhes das modelos, indicando que a nudez de outrora já anda caindo em desuso em tempos mais certinhos na TV.

Brega & Chique. “Nuzinho, pelado, nu com a mão no bolso”, como dizia a música do Ultraje a Rigor, um rapaz, ou melhor, a bunda de um rapaz que aparece no final da abertura da novela de 1987 causou escândalo enquanto se aprovava a Constituição agora em vigor no país. A Globo pediu a Donner que cobrisse o homem com uma folha de parreira, pequena, depois enorme, mas o governo acabou autorizando a exibição da vinheta sem censura.

Renascer. Já abusando dos efeitos especiais, a abertura de 1994 foi quase toda feita em computação gráfica, mas guarda alguns elementos da engenharia artesanal de Donner, como o chão da fazenda que se abre ao meio para revelar uma metrópole toda iluminada, no caso, uma maquete de verdade inserida numa sequência quase toda feita em animação.

A Indomada. Maria Fernanda Cândido faz sua estreia na TV encarnando a mulher-animação que atravessa todos os obstáculos em seu caminho. Vira fogo para atravessar anéis metálicos, um jato de água para driblar estacas de pedra que despencam do céu e estoura em pedregulhos para atravessar um labirinto de ferro, tudo com muito brilho, muito 3D, muito Donner.

O Dono do Mundo. Um dos maiores clássicos de Hans Donner, a abertura da novela de 1991 inseria mulheres peladas, é claro, no globo terrestre que vira brinquedo de Charlie Chaplin na cena do também clássico “O Grande Ditador”, filme de 1940. Donner diz que pensando no personagem de Antônio Fagundes, protagonista da trama, quis criar um “dono das mulheres”.