Tragédia no Nepal também apagou parte da memória visual do país

Por SILAS MARTÍ
Estátua em ruínas na cidade histórica de Bhaktapur, no Nepal
Estátua em ruínas na cidade histórica de Bhaktapur, no Nepal

Devastado por um terremoto que matou mais de 5.000 pessoas, o Nepal terá também de lidar com a destruição de seu patrimônio histórico, construções na capital Katmandu e outras cidades do país que vieram abaixo com os abalos sísmicos. Enviados ao local, jornalistas relatam um cenário calamitoso, de torres e templos arruinados, além de flagrar o roubo de artefatos de muitas dessas construções. São objetos que no Ocidente podem valer muito em leilões de antiguidades, caso ninguém evite seu tráfico para fora do país.

Tanto em desastres naturais, como o que arrasou o pequeno país asiático, quanto guerras costumam vitimar não só as populações mas as obras de arte e relíquias de um lugar. Ficaram famosas as chocantes imagens de terroristas do Estado Islâmico destruindo peças históricas de um museu em Mossul, no Iraque, sem contar a explosão das estátuas de Buda em Bamiyan, no Afeganistão, pelas forças do Taleban.

Órgãos internacionais como a Unesco e o Conselho Internacional de Museus costumam recrutar especialistas prontos para adentrar zonas de desastre ou conflito armado para zelar pela integridade dessas peças históricas. O Exército norte-americano, por exemplo, também vem aumentando seu número de soltados restauradores para atuar em frentes de combate mundo afora. Há quatro anos, acompanhei uma sessão de treinamento de agentes de grupos como o Escudo Azul, em Brasília, no auge da destruição das cidades históricas durante a guerra civil que até hoje corrói a Síria.

Num caso de igual complexidade, também vi de perto o restauro das imagens sacras em São Luiz do Paraitinga, no interior de São Paulo, quando a cidade foi destruída por uma enchente que deitou abaixo parte de seu casario colonial e as igrejas. Em todas essas situações, a ação de um restaurador se baliza pela extensão da destruição e encara o dilema entre recriar partes perdidas de um monumento ou deixar evidente os traumas sofridos.

No Nepal, quando a poeira baixar, deve começar outra contagem de vítimas, a dos monumentos históricos que ficarão só na memória.