Sereníssima ficou para a história

Por SILAS MARTÍ
Vista de um dos canais de Veneza
Vista de um dos canais de Veneza

Iates lustrosos atracados ao longo da laguna indicam que chegou a hora de mais uma Bienal de Veneza. No tablado áspero das pontes sobre os canais e no meio do agito dos vaporetto na hora do rush, saltos finíssimos se equilibram e o som de taças de spritz brindando mais uma temporada frenética das artes visuais se tornam trilha sonora dessa primavera italiana.

Um mês antes do habitual, e na ressaca da abertura da Expo Milano, a mostra universal em Milão, a tradicionalíssima exposição de arte italiana abre nesta semana no calor dos protestos que chacoalharam a metrópole vizinha. Sereníssima só no nome, Veneza abre as portas para convidados VIP de sua bienal nesta terça como uma das edições com o maior número de artistas negros em toda a sua história, bem no rastro das manifestações contra a morte de afrodescendentes assassinados pela polícia nos Estados Unidos.

Okwui Enwezor, o nigeriano-americano por trás desta edição da mostra, compôs um elenco de peso para pensar o que chama de todos os futuros do mundo, entre eles o artista e cineasta britânico Steve McQueen, de “12 Anos de Escravidão”, e o também britânico Isaac Julien, que vai ler em Veneza a íntegra do “Capital”, de Karl Marx, além de estrear um filme inspirado no pensamento e na memória da arquiteta ítal0-brasileira Lina Bo Bardi.

Enquanto isso, o pavilhão brasileiro toma como ponto de partida os protestos de junho de 2013, reunindo os artistas Antonio Manuel, Berna Reale e André Komatsu para refletir sobre que país é esse em que tudo que está em construção já virou ruína. É uma seleção que provoca e mostra uma cara do Brasil que está longe de fascinar o público estrangeiro. Sai a bossa nova e as cores de um idílio tropical para entrar em cena tênis pendurados na haste que deveria ostentar uma bandeira nacional, uma mulher que corre com uma tocha olímpica dentro de um presídio de segurança máxima no Pará, entre outros símbolos de desvios de poder e catástrofes já anunciadas.

Além do pavilhão brasileiro, a artista Tamar Guimarães, brasileira radicada em Copenhague, representa o país com uma obra no pavilhão belga. Outros brasileiros, como Vik Muniz e Nino Cais, participam de outras mostras na cidade. Muniz alude à fracassada tentativa de travessia do Mediterrâneo que matou quase 800 imigrantes há pouco na costa italiana com um barquinho de papel em tamanho gigante em que estão reproduzidas manchetes de jornal sobre acidentes desse tipo, sublinhando uma linha de nós contra eles que isola a Europa de um continente em convulsão do outro lado do mar.

Em tempos de quase guerra no Brasil, protestos em Milão e nos Estados Unidos e naufrágios inclementes às portas da Europa, essa bienal  tem tudo para aposentar de vez o apelido de sereníssima que colou na cidade.