‘Leilão do século’ é um teatro de cartas marcadas com transmissão ao vivo

Por SILAS MARTÍ
'As Mulheres de Argel (Versão 'O')', de Pablo Picasso
‘As Mulheres de Argel (Versão ‘O’)’, de Pablo Picasso

Em menos de 15 minutos, lances pela tela “As Mulheres de Argel”, de Picasso, agora a obra de arte mais cara a ser arrematada em leilão em toda a história, foram de US$ 100 milhões para US$ 160 milhões, chegando à estratosférica cifra final de US$ 179,4 milhões com os encargos da casa de leilões.

Mesmo antes da venda, que bateu o recorde absoluto de um preço atingido em leilão até então detido por “Três Estudos de Lucian Freud”, de Francis Bacon, vendido por US$ 142,4 milhões também pela Christie’s há dois anos, especialistas da gigante do mercado da arte já anunciavam o evento da noite desta segunda em Nova York como o “leilão do século”.

É um apelido que casa com a façanha do valor atingido pelo quadro de Picasso e ainda mais quando se leva em consideração a venda de “O Homem Apontando”, peça de Alberto Giacometti que se tornou a mais cara escultura já oferecida numa venda pública em toda a história. Uma noite, dois recordes.

'O Homem Apontando', de Alberto Giacometti
‘O Homem Apontando’, de Alberto Giacometti

Não espanta que os dois tenham acontecido na Christie’s, a casa de leilões comandada pelo bilionário francês François Pinault, um dos nomes mais poderosos do mercado da arte e da indústria global do luxo, que detém também a Gucci, entre outras marcas. Ao contrário de sua maior concorrente, a Sotheby’s, a Christie’s é uma empresa de capital fechado, que não precisa prestar contas a um quadro de diretores executivos e acionistas.

Nesse sentido, o império de Pinault tem mais margem para fazer o que a Sotheby’s também faz, mas acaba ouvindo seus acionistas espernearem. Estou falando da polêmica prática de dar garantias a quem vende uma obra que ela atingirá um preço mínimo, arcando com o prejuízo caso isso não aconteça.

Mas isso quase não acontece. Quando a crise financeira derreteu os mercados há sete anos, as duas gigantes quase naufragaram tamanho era o rombo gerado por essas garantias. Só que desde a recuperação plena do mercado da arte, atestado pelos recordes sendo batidos, as duas maiores casas do mundo vivem uma verdadeira queda de braço tentando seduzir os colecionadores mais poderosos com garantias da performance de suas peças nas vendas.

Ou seja, em tempos em que é possível acompanhar ao vivo pela internet a exasperação –ou aparente exasperação– do leiloeiro tentando alçar os preços às alturas em pleno salão, já é possível saber desde antes da venda que determinadas peças atingiriam mesmo tal valor. O leilão de ontem não passou de um teatro de cartas marcadas, que ganha em dramaticidade com transmissão ao vivo de suspiros e sussurros direto de Nova York.

Muitas das obras à venda, e pode ter sido o caso com o Picasso e o Giacometti estrelas da noite, acabam sendo compradas por mais de um investidor, numa espécie de vaquinha milionária para alçar a cotação de determinado artista no mercado. Estou dizendo que além da garantia dada a quem vende pela casa de leilões, há garantias que alguns colecionadores dão à Christie’s dizendo que darão lances até um valor determinado, em geral cobrindo a garantia já acordada com o vendedor que está se desfazendo da peça em questão.

Picasso e Giacometti não precisam de mais provas de seu valor histórico e artístico. As duas peças vendidas nesta segunda em Nova York estão, nesse ponto, acima de qualquer suspeita. Mas voltam os holofotes para a falsa transparência que reina no mundo dos leilões. Da mesma forma que um blockbuster ou novo espetáculo do Cirque du Soleil, uma venda de obras de arte também já pode ser anunciada de antemão como o espetáculo do século.