No meio do caminho, havia a cidade

Por SILAS MARTÍ
Cenas de vídeo de Arnaldo Pappalardo na mostra 'Ver do Meio'
Cenas de vídeo de Arnaldo Pappalardo na mostra ‘Ver do Meio’

Em tempos de drones que sobrevoam sem deixar rastro, deslizando desimpedidos sobre as cidades, uma mostra encerrada há pouco no Instituto Tomie Ohtake mostrou uma visão diferente de São Paulo. Imagens dos fotógrafos Arnaldo Pappalardo, Mauro Restiffe e Pio Figueiroa revelam a cidade do ponto de vista de quem caminha por ela, podendo ver o “mato que cresce entre as pedras”, nas palavras do curador Nelson Brissac.

Fotografia de Arnaldo Pappalardo, na mostra 'Ver do Meio', no Instituto Tomie Ohtake
Fotografia de Arnaldo Pappalardo, na mostra ‘Ver do Meio’, no Instituto Tomie Ohtake

De olho fixo na metrópole ao longo dos anos em que organizou o festival “Arte Cidade”, Brissac lançava ali uma provocação, buscando vistas impregnadas de asfalto, presas à escala das ruas, calçadas e avenidas da cidade. O resultado são imagens coladas  em empenas cegas, estacionamentos, pontos de passagem, trens do metrô abarrotados e afins. “Ver do Meio”, como o nome da mostra já diz, é uma compilação de imagens imiscuídas no tecido urbano.

Fotografia de Arnaldo Pappalardo, na mostra 'Ver do Meio', no Instituto Tomie Ohtake
Fotografia de Arnaldo Pappalardo, na mostra ‘Ver do Meio’, no Instituto Tomie Ohtake

No conjunto exibido no centro cultural de Pinheiros, chamam a atenção as vistas do Minhocão pelas janelas de um Fusca que cruza o elevado, obra de Pappalardo, além das visões em planos abertos e fechados da textura das paredes dos barracos de uma favela, do mesmo autor. Quando vistos de perto, esses muros lembram pinturas e composições abstratas, trafegando entre um minimalismo despojado e uma abstração um pouco mais provocativa.

Elas lembram alguns dos registros de Restiffe, que escancara de perto como prédios e suas reformas e puxadinhos vão transformando a malha urbana num quebra-cabeça de temporalidades, estruturas meio novas e meio velhas, ruínas que nunca deixaram de ser construção e outras estranhezas que não despontam no horizonte porque estão perto demais dos nossos olhos.