Da boate pra galeria, festas viram arte

Por SILAS MARTÍ
Cena de vídeo de Carl Slater agora no Plymouth Arts Centre, no Reino Unido
Cena de vídeo de Carl Slater agora no Plymouth Arts Centre, no Reino Unido

Nos tempos do VHS, a noite não aparecia de forma instantânea em feeds do Instagram e timelines do Facebook. Talvez por isso a memória dessa cultura clubber, o auge das raves e sua gente maluca fervendo com glow sticks na pista de dança, venha aos poucos se tornando fetiche de uma geração de artistas que viveu aquele momento e agora quer contar sua história. Nesta semana, o jornal “The Guardian” indicou como uma das melhores mostras do Reino Unido a individual de Carl Slater no Plymouth Arts Centre, um espaço cultural na cidade portuária que foi um dos berços da era raver no país.

Não conheço Plymouth, mas há um paralelo curioso com a realidade paulistana. A Warehouse, maior boate de música eletrônica dali, hoje se tornou sede de um canal de TV evangélico. Nada parece simbolizar mais o fim de uma era que a conversão de um templo do hedonismo em espaço de difusão de doutrinas religiosas. Se é verdade que Plymouth encaretou, São Paulo não está muito distante de se tornar um território cada vez mais árido para experimentações estéticas na noite, tendo sobrevivido só a Voodoohop e seus derivados, mesmo assim já distantes do que já foram no início.

Cena de vídeo de Carl Slater no Plymouth Arts Centre, no Reino Unido
Cena de vídeo de Carl Slater no Plymouth Arts Centre, no Reino Unido

Mas há coisas que despontam à revelia do ódio e da insensibilidade urbanística que castigam São Paulo. As últimas edições do festival Música.Performance, no Centro Cultural Banco do Brasil, juntaram com certa graça os mundos da noite e da arte. Em outubro, uma nova edição deve fazer tremer o sisudo prédio do centro, mostrando mais uma vez que o espaço que se esvazia à noite e nos fins de semana é mais do que adequado para virar um campo fértil para as baladas. Artistas que saíram das festas e entraram para o circuito, muitos ex-Voodoohop, como Daniel Lie, e outros que tiveram apoio do Red Bull Station, como Fabiana Faleiros, vêm conquistando espaço com a fusão de noite e arte. Rafael Menôva vem transformando uma antiga fábrica de luvas no Glicério em cenário de festas cheias de artistas.

Em muitos casos, são performances e ações efêmeras que o circuito ainda tenta digerir. Faleiros, por exemplo, vem realizando shows no Solo Shows, um espaço improvisado pelo curador alemão Tobi Maier em seu apartamento no centro da cidade, enquanto a estética da noite, suja ou não, raver ou funk, vem contaminando o purismo dos cubos brancos pela cidade.

Numa mostra recente organizada por Tiago Tebet na galeria Luciana Brito, artistas foram convidados a mostrar trabalhos que fizeram antes e depois de seus 30 anos de idade, um marco temporal que indica talvez a passagem da juventude para a maturidade. Não sei se concordo com essa linha divisória, mas um dos trabalhos mais interessantes da mostra era uma fotocópia de Adriano Costa com antigos flyers da Torre do Dr.Zero, inferninho em Pinheiros onde o artista comandou algumas das baladas mais fortes da cidade. E tudo aquilo que ficou na memória ameaça virar arte.