Entre os mortos, estão museus e centros culturais

Por SILAS MARTÍ
Performance de Maurício Dias e Walter Riedweg no Paço das Artes
Performance de Maurício Dias e Walter Riedweg no Paço das Artes

Este não será um post feliz. Entre mortos e feridos, estão museus e centros culturais. Vítimas da crise econômica, espaços dedicados à arte costumam ser os primeiros a sofrer cortes ou mesmo deixar de existir quando as vacas minguam. Nos últimos meses, o Brasil entrou numa onda de extinção de suas já combalidas instituições culturais. A primeira a desmoronar foi a Casa Daros, o entreposto carioca de uma megacoleção de arte latino-americana com sede em Zurique. Depois de uma reforma milionária no casarão que ocupou em Botafogo e mostras que geraram certo buzz, os suíços decidiram arredar o pé do Rio, assustados com o tal do custo Brasil. Brasileiros não têm escolha, estão fadados a equilibrar as contas, demitir e encolher quando não sumir de vez.

Também no balneário olímpico, o Parque Lage e a Casa França-Brasil, depois de passar por uma merecida reestruturação pelas mãos de Lisette Lagnado, Marcio Botner e Pablo León de la Barra, agora estão destinados a um futuro paupérrimo. Demitiram quase metade da equipe e parece que nem por milagre vão voltar a ter o brilho fugaz que ostentaram nos últimos anos. São espaços centrais para a vida cultural do Rio e do país. É urgente que a situação se resolva —no caso, que dinheiro entre no caixa— para não afundar de vez na mediocridade uma cena bastante promissora.

Na sequência, veio a intervenção da reitoria da Universidade de São Paulo no Museu de Arte Contemporânea. Desde que o MAC se mudou para a sede nova de frente para o parque Ibirapuera, coisa de quatro anos atrás, pouco mudou. O museu continua sem reserva técnica, o tão aguardado restaurante na cobertura, a biblioteca, entre outras coisas. Mais importante ainda, não tem dinheiro para realizar exposições temporárias, dependendo da boa vontade ou do oportunismo de outras instituições para manter de pé um calendário de mostras. Nesse ponto, só seu acervo, uma das coisas mais fantásticas que temos nesse continente, salva. Na carência de coisa melhor, pelo menos nos resta um De Chirico, um Boccioni, um Modigliani.

Alunos e professores se reúnem no Parque Lage para discutir futuro da instituição
Alunos e professores se reúnem no Parque Lage para discutir futuro da instituição

Nos últimos dias, também estive pesquisando a situação escabrosa do Museu do Ipiranga. Interditado com risco de desabar há três anos, cada esforço para restaurar o lugar demora uma eternidade. São laudos, estudos, avaliações e diagnósticos que dependem do andamento vagaroso de licitações, autorizações, carimbos e afins para sair do papel. É bom que a Pinacoteca do Estado esteja mostrando algumas das peças do Ipiranga, já que tudo ali ficaria escondido pelo menos até 2022. Mas o certo seria se esforçar para resolver com mais rapidez uma situação calamitosa.

Outro caso dramático a engrossar essa lista é o Paço das Artes. Há anos se falava que o museu teria de deixar sua sede na Cidade Universitária, onde está há mais de duas décadas, para dar lugar a uma ampliação do Instituto Butantan. Aqui entra uma dessas coisas engraçadas do Brasil. Um museu de arte precisa ser desativado para dar lugar a uma fábrica de vacinas contra a dengue, uma doença que se prolifera com cada vez mais voracidade por essas bandas tropicais. O debate beira o absurdo. Queremos arte ou queremos acabar com a dengue? Os dois, por que não?

Só acho que aquele prédio dentro da USP, embora não pertença à universidade, virou um monumento às avessas de como se cria e se mostra arte neste país. É um gigante brutalista inacabado, com um subsolo que já serviu de cenário para festas e até feiras de arte, quando não inundado para criar instalações artísticas ou por acidente mesmo —a visão da precariedade que, no entanto, sobreviveu como celeiro de artistas que estão entre os mais criativos da cena nacional.

Casa França-Brasil, no Rio
Casa França-Brasil, no Rio

Fora o papel de plataforma de ascensão de novos nomes, o aspecto livre, desimpedido e meio improvisado do lugar ainda rivaliza com o resto de um circuito engessado, de galerias de olho nas bolhas especulativas do mercado e museus reféns de mostras cada vez mais esvaziadas, sensacionalistas ou bobas, mastodontes do merchandising de uma era viciada na Lei Rouanet. A notícia do fim do Paço das Artes me deixou com um gosto amargo na boca. Já critiquei muitas mostras realizadas ali, mas num ponto ele está acima da crítica, o de ousar sempre, mesmo que errando, algo cada vez mais raro no mundinho mais que perfeito das artes visuais.

Espero que esse espaço encontre uma nova morada. Hoje comentei com um amigo se não seria fantástico levar o Paço para o edifício Sampaio Moreira, que a prefeitura teve a brilhante ideia de transformar em repartição pública. Enquanto duraram as exposições realizadas pela Red Bull nesse que foi o primeiro arranha-céu de São Paulo, o lugar vibrava. Tinha fila na porta, festas épicas, gente falando de arte e querendo ver os trabalhos, quando não ficar ali à toa, vendo a vista. Daí me lembram que o Paço é estadual, e o Sampaio Moreira é municipal. No fundo, é uma tristeza sem fim que a burocracia, aliada a um quadro financeiro que atingiu o fundo do poço, ajude a sepultar tudo que pode haver de bom na cena cultural de uma cidade. Encerro esse post com um vídeo da artista Márcia Beatriz Granero, uma ficção científica sobre o destino desastroso de tudo.