Barkley Hendricks dá cor à política do capuz

Por SILAS MARTÍ

Desculpa voltar ao assunto, mas não tem jeito. Já falei aqui de certa apatia política que ronda as artes visuais e também já falei de Barkley Hendricks, um dos artistas mais interessantes dos Estados Unidos. Agora volto a falar dos dois. Em tempos ultrapolitizados, ele não sai do radar. Uma influência decisiva para artistas queridinhos do momento, como Kehinde Wiley, Hendricks nunca abandonou a pintura figurativa, em especial de personagens negros contra fundos vibrantes.

Sua última mostra, agora em Nova York, filtra a exuberância irônica de seus trabalhos dos anos 1960 e 1970 em composições mais explícitas, alusões, por exemplo, à violência sistemática contra negros pela polícia de seu país, algo nada distante do que ocorre no Brasil. Em sua série mais recente, Hendricks não deixa dúvidas sobre seu posicionamento político. Pintou um rapaz negro, com blusa de capuz, como se visto pela mira de um revólver, atrás dele uma bandeira dos Estados Confederados da América, emblema do sul escravocrata durante a Guerra Civil americana.

Não foi a imagem mais vista nem reproduzida de sua obra recente. No lugar dela, a que viralizou foi uma tela que o artista mostrou no Armory Show, feira que aconteceu no início do mês também em Nova York —o retrato de um homem, também negro, vestindo um terno cor-de-rosa contra um fundo no mesmo tom. De beleza plástica inegável, essa composição não deixa de ser menos carregada que a do garoto de capuz. E rola uma certa vontade de enxergar a vida cor-de-rosa em feiras de arte, um momento de crença no poder do mercado seja qual for a tempestade lá fora.

Numa entrevista recente, Hendricks não quis falar da política de sua obra. Queria falar da técnica, das cores. Mas lá pelas tantas lembrou um excelente artigo do “New York Times” sobre a política das blusas de capuz, que vem se tornando uma espécie de ícone da rebeldia, quando não do martírio de jovens negros alvejados pela polícia quase sempre vestindo uma peça dessas. Num cara branco, seria um símbolo do despojamento, sugere o texto do “NYT”, enquanto um negro vestindo a mesma coisa é visto pela polícia como ameaça, “bode expiatório” ou “alvo ambulante”.

Troy Patterson, autor do texto do jornal americano, ainda lembra uma das cenas mais comentadas do ultracomentado último clipe de Beyoncé, em que um menino, também de blusa de capuz, dança diante uma formação militar, homens com suas armas apontadas em sua direção. Leituras apaixonadas à parte, e muito se disse no calor da hora sobre “Formation”, é curioso que muito do violento imbróglio racial nos Estados Unidos de Obama em plena campanha dominada pelos memes venenosos de Donald Trump se resuma a uma peça de roupa.

Em tempo, no nosso Brasil pegando fogo, alguns artistas visuais vêm tornando mais claras suas posições políticas. Falei aqui há pouco de Nelson Leirner e sua decepção com um quadro em que a arte do país tenha se resumido a um jogo de xadrez em que todas as peças têm a mesma cor, ou seja, lamentando a falta de clareza no discurso e posicionamento da classe artística. Enquanto Vik Muniz usa o Instagram do MoMA para criticar o governo, outros nomes agora assinam uma carta aberta que circula pelas redes sociais para defender a permanência da presidente Dilma Rousseff no poder, em clara oposição ao que chamam de ação “jurídico-midiática” por trás de uma “tentativa de rompimento da ordem constitucional” marcada pela “incitação ao ódio”.

Entre os nomes ali —a lista até poucos minutos antes deste post tinha cerca de 500 adesões—, estão os de artistas como Renata Lucas, Rodrigo Braga, Maurício Ianês, Beto Shwafaty, Jaime Lauriano, Tuca Vieira, Bruno Dunley, Vitor Cesar, Paloma Bosquê, entre outros, e curadores de grandes instituições do país, como Fernanda Pitta, da Pinacoteca, Marta Mestre, do Instituto Inhotim, Paulo Miyada, do Instituto Tomie Ohtake, Fernanda Brener, do Pivô, além de Moacir dos Anjos e Júlia Rebouças, que está agora na curadoria da próxima Bienal de São Paulo.

Cena do clipe 'Formation', de Beyoncé
Cena do clipe ‘Formation’, de Beyoncé