Mostra no MAC revê a obra de Oswaldo Vigas

Por SILAS MARTÍ

Um artista difícil de classificar, Oswaldo Vigas ocupa um terreno incerto entre a figuração e a abstração. Suas telas nunca perdem o vínculo com formas reconhecíveis, em especial do corpo humano, mesmo que fragmentado ou misturado a visões de feras fantásticas.

Nesse sentido, a obra desse pintor venezuelano, agora alvo de uma retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea da USP, nunca se enquadrou no cânone das vanguardas construtivas.

Vigas flertou com a geometrização que varreu a arte do século 20 desde o cubismo, mas nunca se entregou de vez à sua ortodoxia, mantendo sempre à mão um arsenal de seres estranhos que às vezes se perdem entre quadrados e retângulos, mas estão sempre ali, respirando no horizonte.

Quando jovem, Vigas viu em Caracas os trabalhos do surrealista cubano Wilfredo Lam, marcado por um sentido particular de mitologia. Depois, nos anos 1950, já vivendo em Paris, conheceu Picasso e outros nomes da escola de Paris, passando a experimentar com um geometrismo próprio.

Ou seja, estendendo uma ponte entre Lam e Picasso, dois pilares de seu universo estético, sua obra revê as cores e formas da arte primitiva de seu país para construir as bases do que mais tarde seria entendido como arte latino-americana, uma tentativa de definir as vanguardas de toda a região.

Nos últimos anos, aliás, a tal arte latina virou moda no cenário global. E o Brasil, sempre mais ligado à Europa e aos Estados Unidos, vem aos poucos estreitando laços com seus vizinhos.

Enquanto mestres venezuelanos, como Alejandro Otero e Armando Reverón, já foram vistos no país e a edição da Bienal de São Paulo organizada há quatro anos por Luis Pérez-Oramas também jogou luz sobre uma série de autores latinos, Vigas continuou desconhecido no cenário nacional.

Seu relativo anonimato tem a ver com o fato de o artista ter deixado Paris e voltado à terra natal. Outra questão é a falta de linearidade em sua obra, que oscila entre momentos de maior e menor abstração, retomando experimentos do passado sem medo que isso pareça um retrocesso.