Brasília em ruínas pelas mãos de Niemeyer

Por SILAS MARTÍ

Num dia em que Brasília é tomada por protestos, com a visão inusitada da Esplanada dos Ministérios cortada ao meio por um muro, soube que Oscar Niemeyer pintou duas vistas da capital federal em ruínas. Essas telas dos anos 1960 estão numa coleção particular do Rio e foram expostas uma única vez em Brasília. Niemeyer decidiu retratar sua obra-prima em decomposição depois de receber uma visita do escritor André Malraux, então ministro da cultura francês, que comentou que a cidade desenhada pelo arquiteto se transformaria em ruínas fabulosas no futuro.

Congresso Nacional cercado por manifestantes há três anos
Congresso Nacional cercado por manifestantes há três anos

De certa forma, o comentário de Malraux espelha algo que o arquiteto do regime nazista, Albert Speer, chamou de Ruinenwerttheorie, ou teoria do valor da ruína. Tanto Adolf Hitler quanto Benito Mussolini, nas arquiteturas nazistas e fascistas que encomendaram, buscavam um sentido de perenidade estoica para suas construções, que deveriam manter a pose mesmo em tempos de total e completa decadência, já reduzidas a ruínas do que foram no auge de seu esplendor.

Essa visão rara de destroços do Palácio da Alvorada pintada por Niemeyer é chocante. Mesmo no auge do incêndio político que abala o país, Brasília continua sendo um símbolo, uma espécie de joia intocada, ou maior âncora do mito do Brasil como eterno país do futuro. Nunca ao longo da história, a capital federal chegou a ser plasmada enquanto destruição, a não ser em algumas poucas e recentes representações que começam a aparecer na arte contemporânea.

Brasília em construção em fotografia de Thomaz Farkas
Brasília em construção em fotografia de Thomaz Farkas
Brasília em construção em fotografia de Thomaz Farkas
Brasília em construção em fotografia de Thomaz Farkas

Há três anos, quando manifestações e protestos em massa varreram o país, com manifestantes pichando e quebrando vidraças do Congresso e de outros prédios na Esplanada dos Ministérios, tudo foi reparado às pressas, evitando que a imagem de Brasília em ruínas pudesse se firmar na memória. Era um ato tanto de preservação do patrimônio histórico quanto de salvaguarda simbólica de algo que devesse permanecer para sempre imaculado no imaginário nacional.

Não fossem essas duas pinturas de Niemeyer —e o arquiteto tinha vergonha delas—, as únicas imagens em que Brasília parece próxima da ruína são, na verdade, de sua construção. Registros do francês Marcel Gautherot e do húngaro radicado no país Thomaz Farkas mostram os esqueletos de Brasília surgindo no horizonte. São talvez a manifestação mais candente daquilo que Lévi-Strauss dizia observar no Brasil, um país onde tudo que ainda é construção parece já ser ruína.

Brasília em construção em fotografia de Marcel Gautherot
Brasília em construção em fotografia de Marcel Gautherot