Guggenheim rompe negociações contra abusos de operários na construção de sua filial em Abu Dhabi

Por SILAS MARTÍ

No meio do terremoto político no Brasil, isso parece muito distante, mas ainda é um dos escândalos mais quentes do mundo da arte. Nesta semana, o Guggenheim anunciou que não vai mais negociar com o coletivo Gulf Labor, grupo de artistas e ativistas que se opõe ao tratamento precário dos operários da construção da filial do museu em Abu Dhabi, obra de Frank Gehry.

No ano passado, escrevi na “Ilustrada” sobre os protestos do coletivo liderado pelo libanês Walid Raad, uma das vozes mais relevantes da arte contemporânea global, que chacoalharam a semana de abertura da última Bienal de Veneza. Além de estender uma faixa contra os abusos da fundação americana e do governo dos Emirados Árabes Unidos no terraço do Guggenheim da cidade italiana, o Gulf Labor tinha um trabalho com grande destaque dentro do Arsenale, um dos principais espaços da mostra organizada então pelo curador nigeriano Okwui Enwezor.

Desde o ato político diante dos VIPs em Veneza, diretores do Guggenheim em Nova York tentam evitar maior desgaste da imagem do museu e sentaram à mesa para conversar com o Gulf Labor. De acordo com organizações de direitos humanos como a Human Rights Watch, trabalhadores na ilha de Saadiyat, o descampado em na capital dos Emirados Árabes Unidos que os xeques querem transformar em meca da cultura, têm seus passaportes confiscados, são obrigados a pagar altas taxas as seus recrutadores e acabam vivendo em condições análogas à escravidão.

Raad e outros artistas vêm tentando boicotar os planos do Guggenheim na região, afirmando que não permitirão que suas obras sejam vendidas para a coleção de Abu Dhabi. Quando estive lá no ano passado, visitei o prédio temporário do museu. Lá, estão trabalhos de alguns mestres do minimalismo e da arte cinética global, trabalhos que falam de luz e movimento, sem invocar qualquer controvérsia política, já que tudo ali é “complicado”, nas palavras de uma curadora.

Em novembro do ano passado, diretores do Guggenheim se comprometeram a estudar mais a fundo as acusações de violações dos direitos trabalhistas na ilha. Em troca, o Gulf Labor deu uma trégua nos protestos, daí a calmaria relativa dos últimos meses. Este mês, no entanto, era o prazo final para a fundação americana dar seu parecer, mas a conversa foi adiada e uma carta do diretor da instituição divulgada logo depois afirmava que não haveria mais negociações com o coletivo e que o assunto dos operários foge a seu controle. O Gulf Labor diz agora que vai intensificar a luta.