Hitler de Maurizio Cattelan abre o circo dos leilões

Por SILAS MARTÍ

Era só uma piada, mas o nome do leilão de ontem na Christie’s era “Bound to Fail”, ou destinado a fracassar. Não foi um fracasso, e a obra mais esperada da noite, a escultura “Him”, em que Maurizio Cattelan retratou um Hitler ajoelhado enquanto reza, foi arrematada por US$ 17,2 milhões. Em cinco minutos, o preço subiu de US$ 10 milhões até o martelo ser batido US$ 7,2 milhões mais tarde, encerrando uma briga entre cinco colecionadores que disputavam a obra.

“Bound to Fail”, aliás, além do nome da venda de ontem, indica uma postura mais apreensiva da elite do colecionismo global. Na ressaca do ano passado, que registrou os maiores valores já vistos em leilões numa única noite —a Christie’s bateu US$ 1,7 bilhão numa única venda e a Sotheby’s chegou a US$ 890 milhões—, este ano promete ser mais comedido, com grandes fortunas em retração e um catálogo de vendas mais modesto do que os da temporada passada.

Uma mudança de comportamento também marca a escassez de obras-primas ofertadas nos leilões desta semana. As duas gigantes do mercado global, Christie’s e Sotheby’s, pisaram no freio e reduziram ao máximo as garantias que costumam oferecer a colecionadores que entregam suas peças para as vendas. Ao contrário do que parece, um leilão não é um evento aberto e público em que os preços atingidos dependem só dos lances dados na hora. Na disputa pelas melhores obras, casas como Christie’s e Sotheby’s atraem colecionadores prometendo que atingirão um preço mínimo, e esse valor muitas vezes já está acordado com quem deve dar os lances na hora que o martelo subir. Quando algo dá errado, o prejuízo é da casa. Essa prática quase naufragou as duas maiores empresas de leilão do mundo em 2008, ano da quebra dos bancos em Wall Street. No ano passado, as garantias voltaram a todo vapor só para contrair de modo radical neste ano.

Daí a oferta menos espalhafatosa das vendas nesta semana. Além do pequeno Hitler de Maurizio Cattelan, mesmo artista que já instalou um enorme dedo do meio em riste em frente à Bolsa de Valores de Milão, a expectativa é grande nesta semana para a venda de um estudo para autorretrato de Francis Bacon, que pode atingir US$ 30 milhões na Sotheby’s na quarta, uma tela de Cy Twombly de mais de US$ 40 milhões na mesma venda e, por último, uma pintura de Monet, que pode chegar a US$ 35 milhões na Christie’s na quinta. Nenhum desses valores, no entanto, passa perto das somas astronômicas registradas no ano passado, com vendas de um Picasso por US$ 179,3 milhões e um Modigliani de US$ 170,4 milhões. Resta ver ao longo desta semana que rumo tomarão esses valores em tempos de expectativas que se reajustam de acordo com a crise.