América profunda em cores desbotadas

SILAS MARTÍ

Museus em Nova York, uma ilha grudada na costa leste dos Estados Unidos, parecem estar perguntando o que é a América, ou se esforçando para juntar os cacos de um velho sonho americano que já virou pesadelo.

No MoMA, uma enorme retrospectiva de Stephen Shore, um dos artistas pioneiros do uso da cor na fotografia e um dos primeiros medalhões a abraçar o Instagram como canal de expressão, coroa seus retratos da vida suburbana deste país. E o Metropolitan exibe uma coleção completa da obra de William Eggleston, talvez o maior nome dessa corrente que celebrou placas de rua, postos de gasolina, carrões lustrosos, estradas abertas.

Shore, que uma vez tive a chance de entrevistar em seu apartamento em Manhattan, documentou sua jornada de carro em direção à América profunda pelo prisma do diário de viagem, fotografando os hotéis de beira de estrada onde dormiu, a comida que comeu, o povo que encontrou ao longo das paradas.

É uma celebração do acaso muito bem construída, calculada para parecer banal, acidental, descompromissada. Mas é tudo menos isso. Shore é talvez um desses estetas que forjou a aura despojada e cool que informou muito da fotografia que veio depois —de Juergen Teller a Wolfgang Tillmans e outras coisas menos maravilhosas.

Eggleston, mais vibrante e sedutor, construiu composições cinematográficas —e hipercalculadas— também usando o para-brisa do carro como moldura e rabos lustrosos de Cadillac como linhas guiando o olhar. Ele não tem a mesma espontaneidade, ainda que fingida, de Shore.

Há uma preocupação, com exatidão de partitura musical, em costurar na mesma imagem os arquétipos da cultura americana, aquela América grande do passado —uma garrafa de Coca-Cola equilibrada sobre o capô de um carrão, um belo garoto loiro de topete irretocável empurrando carrinhos de supermercado num estacionamento, um homem de terno devorando um hambúrguer, mulheres que exageram no laquê.

Vistas lado a lado, imagens de Shore e Eggleston podem às vezes até confundir. Os dois eram amantes do sol a pino. Não há inverno, frio ou sombras nessas visões do destino manifesto. Mas é um brilho enganoso. São fotografias a meio caminho entre uma sátira ácida da jequice ímpar de certos tipos americanos, um ponto de interrogação projetado sobre a ideia de pujança, consumo e riqueza e ao mesmo tempo um encanto pela beleza fabricada de uma terra que criou seus mitos do zero, um pé em Hollywood e outro na Detroit dos automóveis.

Uma melancolia pela perda dessa América que some no retrovisor sublinha seus esforços, juntando duas pontas de um sentimento nostálgico e ambíguo.