Os fazendeiros de Grant Wood encarnam os estilhaços do sonho americano

SILAS MARTÍ

Ele foi para sempre o homem de uma pintura só. Quando “American Gothic” fez sua estreia no Instituto de Arte de Chicago, em 1930, o Evening Post publicou a imagem da tela na capa de seu caderno cultural, celebrando o retrato de um casal de fazendeiros diante de um sobrado de madeira como a mais americana das composições.

Mesmo quem nunca ouviu falar de Grant Wood conhece esse seu quadro, uma das estrelas da coleção do Whitney, em Nova York, encarado até hoje como uma espécie de síntese dos Estados Unidos do século 20. Um homem segura um tridente, o olhar fixo no espectador, como quem desafia e ao mesmo tempo recua, enquanto a mulher ao seu lado olha com preocupação para fora do quadro, estudando o horizonte. O sol brilha intenso. É mais um dia na fazenda.

Uma mostra em cartaz agora, em sintonia com uma temporada de mergulho nas raízes e contradições do sonho americano que varre os museus de Manhattan, tenta ampliar o entendimento da obra de Wood, que entrou para o cânone moderno do país com essa única —e icônica— tela e parece ter sido dispensado de fazer qualquer coisa além.

Numa sequência de galerias no último andar do Whitney, uma série de trabalhos do artista, incluindo peças de mobiliário que ele criou, dão a entender talvez por que “American Gothic” já bastava. Há um excesso de coisas horrendas, mas a forma como tentou dissecar a visualidade da América rural, suas plantações de milho, suas casas de madeira com pretensões góticas e mesmo ideias deturpadas de certo destino manifesto constroem um panorama do que muitos nesse país, talvez metamorfoseados em eleitores de Donald Trump na atualidade, entendem como os pilares da construção do mito americano.

Wood, que cresceu nos cafundós do Iowa, um estado dominado por fazendas no centro-oeste dos Estados Unidos, vai do kitsch ao mordaz, às vezes na mesma composição. Um lustre decorado com espigas de milho abre a mostra, num aceno à base da economia da região e proposta de americanização do art nouveau e seus floreios. Nessa pegada, ele faria ainda poltronas, vitrais e peças para adornar lareiras e salas de jantar de interiores que se pensavam burgueses.

Mas as figuras nas telas que vieram depois vão perdendo o verniz realista de seu casal mais famoso —ele usou o rosto da irmã, Nan, e de seu dentista em “American Gothic”— e se tornam mais roliças, cartunescas, como arquétipos menos viris e mais fofos, encarnações de uma inocência campestre, do trabalhador rural que expandiu o território do país e plantou a comida que encheu a barriga dos desbravadores de um oeste sedutor e infinito.

Suas árvores ali também parecem pompons esverdeados a perder de vista em paisagens encharcadas de luz solar. Lembram descansos de tela do Windows ou o cenário sem arestas dos “Teletubbies”. Mas sua insistência em pintar idílios rurais tem menos a ver com um retrato de seu país como ele é e mais a tentativa de congelar, plasmar com exuberância máxima, uma ideia de riqueza e prosperidade tão obscena quanto fugaz. Wood pintou o país que desejava vislumbrando talvez as tensões que poderiam vir a corroer tudo aquilo.