Os críticos ainda importam, ao menos para ‘nós que estamos dentro desta cena’

SILAS MARTÍ

Lembra uma capela ou uma pista de dança art déco. Não é minha essa descrição. Roberta Smith, a crítica de arte do jornal The New York Times, reagiu com essas palavras à mostra do minimalista Dan Flavin agora em cartaz na galeria David Zwirner, em Nova York. De fato, suas esculturas com lâmpadas fluorescentes espalhadas pelo chão e presas às paredes transformam o espaço neutro e inerte do cubo branco em algo a meio caminho entre o sacro e o festivo.

Quando fui conversar com o dono da galeria no Chelsea há uma semana, dei uma volta pela mostra antes de subir até seu escritório. Lá em cima, David Zwirner estava feliz com as opiniões de Smith sobre a exposição do mais “mágico e emblemático” dos minimalistas, favorecido ali por uma montagem impecável, que nenhum museu conseguiria construir igual. Isso, é claro, não se deve só ao perfeccionismo de Zwirner. Também tem a ver com o fato de ele representar o espólio de Flavin e ter de seguir à risca as recomendações deixadas pelo artista em cada apresentação —fios e tomadas, por exemplo, precisam ser sempre invisíveis.

Mas me chamou a atenção ele se lembrar dos elogios de Smith. Numa parte da conversa que ficou de fora de nossa entrevista na edição impressa da “Ilustrada”, perguntei se os críticos ainda importavam para ele. Há tempos ouvimos que a crítica perdeu sua relevância no mundo da arte atual. Eles teriam sido suplantados por colecionadores e galeristas que exercem influência decisiva e financeira sobre curadores e museus —não raro, o colecionador que já tem obras de um artista em seu acervo particular também tem um assento na direção de uma instituição e pode influenciar a escolha de novas aquisições.

Zwirner disse então que “não poderia trabalhar sem os críticos”, mesmo tendo uma relação meio de amor e ódio com eles. “Amamos e às vezes detestamos eles, mas se não houver ninguém para opinar sobre o que estamos fazendo, não teria graça. Artistas podem estar certos ou errados, mas precisamos dos críticos, os artistas precisam deles. A influência deles vem caindo por causa da internet. Vivemos em outro universo midiático, mas não está diminuindo para nós que estamos dentro dessa cena. Quando alguém como a Roberta Smith elogia uma exposição nossa, é uma coisa fantástica. Isso mostra que alguém está olhando para o que fazemos e prestando atenção.”

Ele logo acrescentou que seu filho, Lucas, apontado como um dos jovens em ascensão na aristocracia do mercado global da arte e responsável pela editora comandada pela galeria, está organizando um livro de entrevistas com uma série de críticos influentes. Smith, do New York Times, é um deles, mas há ainda nomes incontornáveis na história da arte, como Rosalind Krauss e Lucy Lippard. Peter Schjeldahl, da revista The New Yorker, também está lá.

É uma pena que a seleção seja restrita ao eixo Nova York-Europa, mas quem sabe já não esteja nos planos um segundo volume com um escopo mais ampliado, refletindo o elenco em expansão da David Zwirner, que representa também o brasileiro Lucas Arruda, um dos maiores pintores a surgir em décadas, e o colombiano Oscar Murillo.

Enquanto amplia a voz de nomes que sempre tiveram influência, o clã Zwirner ao menos reforça a importância da circulação de um pensamento crítico sobre arte. E ainda lucram com isso, já que os livros ali também estão à venda. Mas fica ainda uma questão. Zwirner, o pai, diz que os críticos continuam influentes “para nós que estamos dentro dessa cena”. E como será do lado de fora?