O açougue das trevas de Chaim Soutine

SILAS MARTÍ

Os frangos e patos depenados, coelhos assados e carcaças de boi das telas de Chaim Soutine dão outro peso à ideia de natureza-morta. Seria, no caso, uma natureza quase viva, já que esse expressionista russo radicado no seio da vanguarda parisiense gostava de pintar seus bichos ainda agonizando ou reavivados com baldes de sangue fresco que guardava em seu ateliê.

Uma mostra agora no Jewish Museum, no Upper East Side nova-iorquino, reúne só essas telas em que Soutine parece ter se esforçado para retratar, na pele dos animais, o momento em que a vida termina. Não fosse o aspecto corriqueiro de carcaças e frangos pendurados em açougues, suas telas poderiam até chocar os mais sensíveis, mas são belos exercícios de gesto e cor.

Ou algo visceral. Esse termo que críticos ao longo da história da arte sempre gostaram de usar para descrever telas de gestual errático e contundente, em especial na tradição expressionista, aqui parece ganhar contornos literais. Tem a ver com a força dramática de uma composição, tanto pelo que retrata quanto pela forma como foi construída, e não faltam anedotas sobre os métodos de Soutine para sustentar toda a gama de conotações dessa palavra.

Seu ateliê era alvo constante de reclamações de vizinhos e visitas da polícia por causa do mau cheiro das carcaças em decomposição penduradas lá dentro. Soutine dizia não poder pintar de memória ou a partir de estudos e se sentava diante dos animais em putrefação para criar as suas telas. Seria macabro se não fossem animais.

É talvez nesse ponto, no entanto, que seus bichos mortos transcendem sua qualidade banal. Soutine transforma em espetáculo brutal e feérico a mais insignificante das mortes, fazendo pensar na própria existência como algo frágil e não menos banal caso seres humanos não pudessem fabricar a própria mitologia e se vangloriar dela. Seu açougue bárbaro é o carnaval das trevas da nossa passagem pelo plano terreno.

Lembra, em sua crueza, outras obras que tentaram retratar o peso trágico da morte, só que humana. No mesmo horizonte visual, estariam o Cristo de Andrea Mantegna ou a série de Flávio de Carvalho sobre a morte de sua mãe. Mas também não pude deixar de pensar em Théodore Géricault, famoso pelo monumental “Bote da Medusa” do Louvre, e que ao longo da vida foi um exímio retratista de cadáveres.

Soutine, mesmo ao se distanciar da forma humana na série das carnes, não deixa esquecer que todos somos bichos e chega a remover a sensação de culpa que sentimos ao apreciar seu circo da morte.